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Homagem ao nosso grande Heroi de sempre Salgueiro Maia

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Homagem ao nosso grande Heroi de sempre Salgueiro Maia

Mensagem  Admin em 2009-09-21, 23:42

E no fim do dia descansou… – Breve biografia de Salgueiro Maia (I)

Foi de Santarém que, na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, partiram as forças do Exército destinadas a ocupar Lisboa e os principais pontos de apoio do regime. Comandados pelo capitão Salgueiro Maia, um dos membros do clandestino Movimento das Forças Armadas, os heróis da revolução saíram da Escola Prática de Cavalaria e em pouco tempo estavam na capital. Um dia intenso, fértil em emoções e em acontecimentos, que culminou, ao fim da tarde, com a rendição de Marcello Caetano e a sua saída para o exílio.
Nasceu Fernando José Salgueiro Maia em 1944 em Castelo de Vide, filho de um ferroviário, que devido à sua profissão era obrigado a mudar frequentemente de residência. Andou assim pelo país todo, passando grande parte da infância e adolescência entre a terra natal, Tomar e Pombal.
Desde cedo que começou a evidenciar as características que o celebrizaram: forte determinação, grande frontalidade, enorme coragem, propensão para a liderança. Resistente do ponto de vista físico, inteligente a nível psicológico.
Em 1964, com vinte anos, ingressa na Academia Militar. Ainda não tem consciência política do país, do regime que o governa e da situação colonial que em breve o espera. Mais de dois anos de estudos na Amadora e a chegada a Santarém e à Escola Prática de Cavalaria. A revolução começa aqui. Ele não o sabia, ninguém sequer o imaginava, mas foi aqui que tudo começou.
A Guerra Colonial estava no auge e o alferes Salgueiro Maia é enviado para Moçambique, onde chega a Dezembro de 1967. Com vinte e três anos, cheio de ilusões, acredita profundamente na missão que vai encetar. «A guerra era também a possibilidade de combater pela dignidade de uma sociedade pluriracial e pluricontinental em que acreditava. De resto, não vi dezenas de colegas de cor que estudavam comigo no colégio Nun’Álvares, de Tomar, e na própria Academia? Não havia, pois, motivos para descrer dos intuitos da guerra e dos propósitos do exército.» – viria a dizer anos mais tarde em relação ao pensamento que o norteava na época.



As capacidades de comando, que já revelara nas ingénuas brincadeiras de criança e adolescente, revelam-se de novo na guerra, mas aqui com outro grau de importância. Quando regressa à metrópole, um ano depois, já como tenente, é um homem totalmente diferente. Pelo meio, ficou a adopção de uma criança moçambicana pela Companhia de Comandos, a visão clara daquilo que, afinal, era a guerra e, mais importante do que tudo, a percepção clara do regime corrupto e decadente que governava Portugal.
No fundo, a desilusão completa. A tal consciência política que antes lhe faltava. «Havia de ser bonito… Eu pela Avenida da Liberdade abaixo até ao Terreiro do Paço…», chega a referir em plena guerra, como que prevendo o futuro.
É então cometida uma das primeiras injustiças em relação à sua acção: a recusa da medalha de Comando, apenas pelo facto de não ter feito o curso de Comandos em Portugal. Outras injustiças se seguiriam.
Regressado a Santarém, é colocado na instrução da Escola Prática de Cavalaria. Aos subordinados, conta as «estórias» da guerra e da sua experiência pessoal. A partir de certa altura, faz mesmo gala de não esconder a repulsa em relação ao actual estado do regime. Com os superiores, arranja problemas exactamente por essa razão.
A despeito disso, é promovido ao posto de capitão em 1970 e no ano seguinte embarca para a Guiné, com a missão de comandar a Companhia de Cavalaria 3420. A desilusão em relação ao regime acentua-se e a revolta em relação à guerra atinge um ponto limite. Ainda na Guiné, começa a participar nas reuniões embrionárias daquele que viria a ser conhecido como o MFA – Movimento das Forças Armadas. Em Julho de 1973, conhece Otelo Saraiva de Carvalho. Em plena messe dos oficiais, lê a «Seara Nova» e até os livros de Karl Marx.
Regressa ao continente em Outubro de 1973, com as sementes da revolta a fervilhar no seu ânimo. As reuniões tendentes a organizar um golpe de estado são cada vez mais frequentes. «Portugal e o Futuro», de António de Spínola, é publicado em Fevereiro de 1972 e vai concorrer de forma marcante para o fim do regime. «Este livro surge, além do mais, como um imperativo moral de quem não pode conter-se.» – refere o autor na introdução da obra.
A 16 de Março, dá-se a primeira tentativa de golpe. Golpe preparado «em cima dos joelhos», com fraca adesão militar, sem grandes possibilidades de êxito. Salgueiro Maia é um dos que se mostra contra a iniciativa e, por isso mesmo, se recusa a participar. A coluna do Regimento de Infantaria n.º 5 sai das Caldas da Rainha em direcção a Lisboa, mas não chega à capital, pois os seus principais responsáveis são presos ainda antes da partida.
Mas, agora mais do que nunca, a revolução é uma questão de tempo. O MFA marca novas tentativa para daí a um mês, entre 20 e 29 de Abril, e Otelo assume a liderança do plano de operações. A 17 de Abril, entrega a Salgueiro Maia o comando da missão operacional e dá-lhe a entender que há generais envolvidos no golpe, quando tudo não passava, afinal, de um movimento de capitães.
No dia 22, todas as unidades entram estado de alerta. A hora H fica desde logo marcada para as três da madrugada do dia 25 de Abril. Pelas 22 horas e trinta minutos do dia anterior, João Paulo Dinis, aos microfones da rádio, anunciara a música «E Depois do Adeus», de Paulo de Carvalho. Era a primeira senha, o início das movimentações militares. À meia noite e meia, Leite de Vasconcelos lê no programa «Limite», da Rádio Renascença, a primeira quadra de «Grândola, Vila Morena», de Zeca Afonso. «Grândola, Vila Morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti / Ó cidade». É a senha definitiva e o aviso para a saída dos quartéis.

É então que, em plena Escola Prática de Cavalaria, Salgueiro Maia entra em acção. Assume as capacidades de liderança que já manifestava desde criança e dirige-se aos seus subordinados. «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os sociais, os corporativos e o Estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o Estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser, fica aqui.»
Um discurso forte, vibrante, motivador, que poderia ter sido resumido a uma única frase. A tal que Salgueiro Maia também disse. «Há alturas em que é preciso desobedecer!»
in «Santarém: Capital do Gótico». Paços de Ferreira, Hestia Editores, 2006.
A coluna é composta por 240 homens, um esquadrão de reconhecimento com dez viaturas blindadas e um outro esquadrão de atiradores com doze viaturas de transporte de pessoal, duas ambulâncias e um jipe.
Às três horas e vinte minutos, dá-se a partida de Santarém. A viagem decorre sem qualquer problema e às seis da manhã a revolução já está na praça do Comércio. O aeroporto, a RTP, a Rádio Marconi, a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português já tinham sido tomados sem resistência. «Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas» – ouve-se aos microfones do RCP pouco depois das quatro horas.
Um dos trunfos do êxito da revolução foi a rapidez com que Salgueiro Maia percorreu a distância entre Santarém e Lisboa. Duas horas apenas, sem ser interceptado nem ser obrigado a dar nenhum tiro. Uma lição que aprendera com o fracasso do 16 de Março.
A cidade de Lisboa começa a acordar e a população sai de casa para a labuta do dia-a-dia. Com calma e tranquilidade, Salgueiro Maia dirige-se a quem demonstra a vontade de ir trabalhar. «Ó minha senhora, hoje não se trabalha. Amanhã, talvez… mas hoje não! Nem hoje, nem nos dias 25 de Abril que vierem, porque esta data passará a ser feriado!»
O episódio mais complexo daquela manhã ocorre cerca das nove horas. Quatro carros de combate, uma companhia do Regimento de Infantaria n.º 1 e alguns pelotões da polícia militar, todos fiéis ao regime, aparecem dos Cais do Sodré, progredindo pela rua Ribeira das Naus e rua do Arsenal. O brigadeiro responsável exige que Maia se desloque para trás das suas tropas, mas, não sendo obedecido, dá ordens para disparar. Um a um, os seus homens desobedecem e passam para a facção contrária. A facção da liberdade. Na objectiva de Alfredo Cunha, ficou imortalizado o momento em que Salgueiro Maia se encontrava sozinho, no meio da rua, com os canhões à sua frente em posição de disparar, e apenas com um lenço branco na mão.
O apoio popular à causa revolucionária agora já é evidente. A caminho do quartel do Carmo, onde Marcello Caetano está refugiado, Salgueiro Maia segue numa espécie de «cortejo» triunfal. A cumplicidade do povo, nesses momentos de enorme tensão, foi então decisiva.

Com o megafone na mão, por volta das três da tarde, Salgueiro Maia pede que o quartel se renda no espaço de dez minutos, período após o qual dará ordem de disparar. O prazo esgota-se sem haver qualquer resposta e a primeira rajada de tiros não se faz esperar.
A ansiedade atinge níveis indescritíveis. «Militares, populares e jornalistas são por uma vez testemunhas e protagonistas da história. Há já milhares de cravos vermelhos. Canta-se a marcha do MFA e Grândola Vila Morena. Entoam-se palavras de ordem. Mas do meio da turba uma voz de comando destaca-se e o passo decidido de Salgueiro Maia cadencia o ritmo dos acontecimentos.» (António de Sousa Duarte)
No momento em que se preparava para dar ordem de disparar maciçamente sobre o quartel, chega uma carta de Spínola dirigida a Marcello Caetano. Às perguntas dos mensageiros – quem manda aqui e quem é o oficial mais graduado – Salgueiro Maia responde da mesma forma. «Mandamos todos! Somos todos capitães!»
Às cinco da tarde, porque a situação não se desenvolve, o capitão, temerário, entra no quartel para falar directamente com o presidente do Conselho. Na breve conversa com Marcello, Salgueiro Maia mostra toda a enormidade do seu carácter, das suas intenções e dos objectivos que o levaram a sair de Santarém para acabar «com o Estado a que chegámos». Assegura a protecção do chefe do Governo, diz que programas políticos não são consigo e coloca todos os membros do MFA no mesmo plano.
Salgueiro Maia, primeiro, e Francisco Sousa Tavares, depois, apelam à calma e tranquilidade dos presentes. Spínola já chegou e Marcello Caetano acaba de lhe entregar o poder. Ao capitão, ainda lhe estava reservada uma última missão: conduzir Caetano ao comando do MFA, na Pontinha.
A revolução estava consumada, o nosso herói podia tranquilamente voltar para a sua Escola Prática de Cavalaria, para a sua Santarém, como se nada tivesse acontecido.
«Era um militar de bravura inigualável, mas também extremamente sensato e um homem de coração. Maia era um chefe nato e dele emanava a força serena dos homens habituados a dominarem-se e, sendo preciso, a dominar os outros. Foi assim que Salgueiro Maia, com os seus homens, dos quais a maioria sem qualquer experiência e praticamente sem instrução de tiro, venceu na revolução e virou a página da história de Portugal.
Dominou calmamente, no Terreiro do Paço, o tenente-coronel Ferrand de Almeida, dominou o brigadeiro que se lhe quis opor e, pela calma fixa do seu olhar, dominou um a um os homens que receberam ordem para disparar sobre ele. No Carmo dominou tudo e todos: dominou a guarda, dominou o Governo, dominou os ministros que choravam, dominou a multidão e dominou o ódio colectivo dos que gritavam vingança. E dominou o tempo e a vitória que veio ter com ele, obediente e fascinada.» (Francisco Sousa Tavares)
Nos anos seguintes, recusou ser comandante da Escola Prática de Cavalaria, membro do Conselho de Revolução, adido militar numa embaixada, governador civil de Santarém e membro da Casa Militar da Presidência da República. Tudo recusou, porque a única ambição que tinha era de continuar em Santarém com o posto que ocupava. Aos que constantemente lhe lembravam os actos heróicos que protagonizara, respondia apenas: «O que lá vai, lá vai.»
Entre 1977 e 1984, foi completamente ostracizado. Como que punido por ter feito a revolução. Aconteceu-lhe a ele como a muitos outros dos militares de Abril. «Até já poderemos ser acusados e presos por implicação no 25 de Abril» – chegou a confessar a João Paulo Guerra.
Desalentado, tentou um último reconhecimento da hierarquia militar. Em 1988, já doente, solicita uma irrisória pensão por «serviços excepcionais ou relevantes» prestados ao país. Foi-lhe recusada a pensão, ao mesmo tempo que era atribuída a dois antigos inspectores da PIDE.
Morreu em 3 de Abril de 1992, depois de quatro anos de sofrimento, nos quais se incluíram quatro operações cirúrgicas. Ao funeral, realizado em Castelo de Vide ao som da «Grândola», como era seu desejo, ocorreram as mais altas instâncias, passadas e presentes, da governação. Confirmando o que alguém disse nesse exacto momento: «Mesmo depois de morrer, o Maia continua a servir sem se servir.»

Por tudo o que fez ao longo de 47 anos de vida, Fernando José Salgueiro Maia é uma das maiores figuras da história de Portugal no século XX, à qual não foi dada, ainda, a importância devida. Um dos poucos heróis portugueses do século, capaz de fazer uma revolução com 240 homens mal treinados e um conjunto de obsoleto material militar. É provavelmente a única personalidade portuguesa do século XX que mereceria a distinção, sem a ter tido até ao momento, de descansar eternamente no Panteão Nacional.
Por quê? Porque Salgueiro Maia deu-nos tudo. Quem ainda não o percebeu, não terá apreendido ainda o significado e o valor da palavra liberdade.



Salgueiro Maia morreu há 17 anos


«Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi Fiel à palavra dada e à ideia tida
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.»
Sophia de Mello Breyner


A 3 de Abril de 1992, após quatro operações cirúrgicas e vários anos de sofrimento, morria Salgueiro Maia. Ao funeral, realizado em Castelo de Vide ao som da «Grândola», como era seu desejo, ocorreram as mais altas instâncias, passadas e presentes, da governação. Confirmando o que alguém disse nesse exacto momento: «Mesmo depois de morrer, o Maia continua a servir sem se servir.»
O maior dos heróis de Abril.
Foi há 17 anos.
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