Anuncios
Mais um encontro dia 1 de Dezembro 2011 em Tomar
Tópicos similares
Radio
Découvrez la playlist Techno Parade 2009 avec Sander Kleinenberg
Buscar
 
 

Resultados por:
 


Rechercher Busca avançada

Galeria



Esprito de groupo por Fernanda Leitão

Ir em baixo

Esprito de groupo por Fernanda Leitão

Mensagem  Admin em 2009-04-19, 21:26

O ESPÎRITO DE GRUPO
Por Fernanda Leitão
Fora a Cidade feia, suja, triste e sem graça; fora o Colégio um quartel de feroz estreiteza — e ainda assim nos, parcela de uma geração a findar com o século, sentiriamos saudades. Uns dos outros, na maior parte dos casos sim, da mocidade que se foi, garantidamente sempre.
Cinquenta anos depois, a seis mil quilômetros de distância da Pàtria e o Atlântico todo pelo meio, a Norte do mundo e a um canto da vida, concluo pela grande bondade de Deus com esta nossa geração que passou pelo C.N.A, por isso de nos ter deixado viver anos decisivos da nossa vida numa Cidade belissima, limpa, jovial e cheia de senso de humor. O prôprio C.N.A., não sendo perfeito, e eu sempre me queixei de falhas, teve a virtude de não castrar o nosso amor à liberdade e de tecer entre todos nos um fio invisivel de entendimento.
Ainda hoje, tantos decénios passados, nos interessamos por este ou aquela, nos contristamos com as contrariedades que a vida lhes trouxe, gostamos de lhes dar um bom abraço. O entendimento tâcito tem sido um facto. Foi tecido numa instituiçâo que, plantada numa cidade de provincia, num tempo de, felizmente, pouco dinheiro e nenhumas discotecas, virgem do que fosse droga ou delinquência juvenil, tirou partido desse ambiente organizando festas grandes duas vezes por ano e olhando, com bréjeira complacência, os divertimentos que nos prôprios organizàvamos. As tardes de rapioca na Feira de Santa Iria, as fogueiras pelos Santos Populares, os magustos, os assaltos de Carnaval, os bailes na Quinta do Vale Pereiro, os grupelhos lascarinos a pedir os bolinhos, outros grupelhos mais lascarinos ainda a cantar as Janeiras, as passeatas de barco até ao açude do Neves a ver se a fruta estava madura, os piqueniques, as corridas de bicicleta na Estrada da Serra, as ramboias fora de portas com transporte garantido pelo "autocarro" do Alberto Silveira (que saudades da Fernanda Galo e do Pai, da Mauricette e de outros mais), os desafios de futebol entre o C.N.A. e a Escola Industrial e Comercial de Jacomme Ratton, com muita canelada e muita arruaça, as garraiadas cheias de diestros e forcados, talentos de burladero a dar com um pau (nunca mais me passou o Zé Tamagnini a cavalo na trincheira, uma molhada de bandarilhas debaixo do braço, a espetar farpas, metodicamente, sentado, sempre que um garraio lhe passava perto, e a berrar para o tio, o Dr. Ângelo, que num camarote levava um arraso na carteira por ter prometido ao malandreco cem escudos por cada farpa espetada), as prôprias idas a Santarém para exame que, somadas, eram uma farra, os exercfcios nocturnos da Defesa Civil do Territôrio, liderados pela defunta Legião Portuguesa, que o Chico Magalhães e outras praças trataram de avacalhar com a cara mais séria deste mundo, as inesqueciveis matinés em frente da montra do Cotralha em concursos de alto gabarito a ver quem descobria primeiro o saca rolhas ou o coador do café. Enfim, um nunca acabar de invenções pela roda do ano.
A este estado de espfrito chama-se, neste nosso tempo, em que esta na moda o politicamente correcto, "criatividade". Anarquista, eu chamo-lhe alegria de viver. Gostàvamos de viver. A vida saltava-nos por cada poro da pele. A alegria corria-nos no sangue. Nem sô por nos divertirmos à grande, com tâo pouco, saboreando a amizade e o companheirismo. Até os tempos de paragem nos sabiam bem.
Lembro por vezes, de forma nitida, os longos dias de verâo passados a ler — a varrer os clâssicos portugueses e estrangeiros, enquanto no terraço de minha casa a Flor Campino, sempre vestida de negro, dava forma a um monte de barro numa bancada de acaso ou desenhava gritos da sua alma inquieta, ou o Carlos Amado, debaixo de uma parreira, a dar os primeiros passos do Mestre de escultura que viria a ser. E um galo que cantava, repenicado, a meio da tarde. Tantos
livros, outros tantos amigos, bendito tempo e fecunda sementeira, que pela vida fora me foi ferramenta de trabalho e no descer da encosta, é seguro bordão onde me arrimo na lonjura. E as noites calidas, depois de um passeio a pé, a escrever num caderno que se perdeu de mim, ou eu dele, quando tocou a retirar.
Sempre, nas mais variaclas distâncias e latitudes, este fio de entendimento a unir-me a uma geração e a uma terra. A saber que ai, desse lado, também outros têm esse sentimento de pertença a uma geração e a uma terra. Ternos principios, temos coração, temos estaleca., porque temos raizes.
Não somos uma geração de aviario.
Ha-de haver bons (Trinta anos, uma noite estava no Cinema Monumental com a Martha Lima Basto e os irmãos, quando me chamaram. Era gente nossa, do C.N.A. Fui até eles para um abraço e uma breve conversa. Quando voltei, os manos Lima Basto estavam com um arzinho de pagode e a Martha, que devia ter sido diplomata em vez de enfermeira da O.M.S. ( Organizaçào Mundial de Sande ), perguntou-me muito sonsa: "Eram là da faculdade ? Nào me lembro deles...". Expliquei que era rapaziada do C.N.A. Ela, formalizadissima, voltou-se para os irmãos perdidos de riso e deixou cair: "Eu não disse? É "mafia tomarense ". Quando depois do filme fomos para o Convés cear, pedi-lhe explicações. Que era isso de "mafia tomarense"? Ela e os irmãos, a rir, a rir, explicaram que quando nos, os do C.N.A., nos juntàvamos, havia um "não sei quê" entre nos, um traço de união de quem pertencia ao mesmo bando,
Eu chamo a esse nào sei quê, ternura. Se chamarem mafia, deixà-lo, ha-de haver uma mafia santa. Pelo sim, pelo não, vamos chamar-lhe espirito de grupo.
Para não passarmos por lamechas e porque tem outro recorte em obra de tanta valia, como esta que o João Granada tomou a sen cargo organizar.
Toronto, Sexta-Feira Santa, ano 2000.
Maria Fernanda Leitão
Antiga Aluna. Jornalista, Escritora e Conferencista

PS: texto tirado do livro AD Perpetuam Memoriam "Colégio nun'alvares de Tomar"
avatar
Admin
Admin
Admin


Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum