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Um português na linha da frente do automobilismo mundial "DOMINGOS PIEDADE"

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Um português na linha da frente do automobilismo mundial "DOMINGOS PIEDADE"

Mensagem  Admin em 2009-07-07, 20:30

Life in the fast lane -
Um português na linha da frente do automobilismo mundial.


Por entre o ruído ensurdecedor de umas corridas que decorriam no Autódromo do Estoril, mas que fazem Domingos Piedade sentir-se em casa, o Administrador da AMG-Mercedes, empresa do grupo DaimlerChrysler falou com a Essential sobre a Fórmula 1, a admiração por Ayrton Senna e uma vida vivida ao ritmo e velocidade das paixões.
êê Habituámo-nos, há alguns anos atrás, aos domingos, à hora de almoço, a ouvir Domingos Piedade comentar os Grandes Prémios de Fórmula 1.

Mas a sua paixão pelo desporto automóvel é anterior a isso. Domingos Piedade recorda a adolescência e o facto de o seu espírito algo rebelde ter levado os pais a mandarem-no para o Colégio Nuno Álvares, em Tomar. No colégio conhece João Carlos Botelho Moniz e vai com ele assistir a uma corrida de automóveis, em que o pai do amigo participa. Estava criado o embrião que se desenvolveria quando em 1962, depois de terminado o curso dos liceus, troca Portugal pela Alemanha. Aí licencia-se em Engenharia Mecânica e posteriormente em Economia e escreve regularmente para publicações desportivas como o Motor, o Volante, a AutoSport, ou o L'Équipe (em França).

O gosto pelo mundo automóvel nasce assim em paralelo a uma outra paixão sua - a do jornalismo. Só não seguiu jornalismo, diz-nos em tom de brincadeira, porque o pai lhe dizia que "uma mulher que soubesse escrever à máquina era secretária; um homem que soubesse escrever à máquina era jornalista".

Em 1969 conhece Emerson Fittipaldi, tornando-se seu manager em 1972 - com ele, Fittipaldi é 2 vezes campeão do mundo e 2 vezes vice-campeão. Mais tarde, representa Armando Botelho, o manager de Ayrton Senna na Europa , com quem trabalha 2 anos, negociando em 1984 o contrato que viria a ligar o piloto à Lotus. Em 1985, passa a manager de Michele Alboreto. Foi ainda director desportivo das equipas da Alfa Romeo (venceu o Campeonato do Mundo em 1975), da Joest-Porsche (venceu Le Mans por 3 vezes), da Fiat-Lancia na Alemanha com Walter Röhrl e da Mercedes Benz, empresa à qual está ligado ainda hoje.

Diz que à semelhança do que acontecia quando era co-piloto de ralis, em que uma das principais funções que tinha era ver num regulamento técnico e desportivo quais as hipóteses que havia de o contornar, hoje o segredo na Formula 1 é fazer algo melhor do que os outros, escondido, "to hide what's legal". Refere duas frases basilares no automobilismo: "When the flag drops, the bullshit stops" e "to finish first, you have first to finish". Alterações profundas de estratégia quando uma corrida está a decorrer, são vitais para o resultado final.

A estratégia da corrida é definida pelo director desportivo, que compara a um jogador de xadrez: tem que imaginar num determinado momento e com determinadas informações (quilos de combustível, com que o carro largou na corrida, degradaçao dos pneus, tempos por volta dos adversários mais directos, onde estão eles na classificação e posicionamento na pista etc.) os desenvolvimentos possíveis para um determinado resultado - no xadrez, o xeque-mate - e seguidamente voltar todas essas jogadas atrás, ao momento em que está. E qual o papel reservado ao piloto quando tudo parece decidido e determinado pela equipa técnica? Domingos Piedade diz sem hesitações: "É a pedra chave executante cada vez mais importante." De facto, a execução da estratégia definida ou de uma alteração desta estratégia depende só dele.

Diz que há pilotos que só conseguem falar quando estão na recta da meta, ou seja, quando têm contacto visual com a equipa; há outros que não conseguem falar durante toda a corrida, só escutam e dizem OK e mais nada; e depois há os pilotos como o Michael Schumacher, em que conduzir é tão natural como falar e é capaz de conduzir e falar ou mesmo cantar ao longo de toda a corrida, esteja ele numa curva de alta velocidade, ou em travagem para um gancho apertado. Schumacher foi o único piloto que até hoje, com excepção do Ayrton em 1993, venceu uma corrida de Formula 1 com 4 pit stops (paragens para substituição de pneus ou reabastecimento) quando estavam previstos apenas 3 pit stops, em Magny-Cours, França.

Recorda Ayrton Senna e diz que ele era superior a todos os outros. Tinha a capacidade única de conseguir ver a realidade envolvente em "super slow motion"; se andarmos a 30Km/h vemos todos os pormenores; a 300km/h não se vê nada. Ele conseguia ver tudo porque a mente dele desmultiplicava a velocidade de processamento da imagem no cérebro.

Relembra o primeiro teste do paulista com a Lotus-Renault, no Rio de Janeiro, em fins de 1984. Ayrton, ao parar na box, faz uma análise técnica completa e exaustiva aos problemas que o carro tinha e dá todos os dados dos instrumentos ao mesmo tempo, desde a temperatura de água/óleo, a pressão do turbo à entrada e à saida das curvas, a oscilação do in-let e out-let em termos de aquecimento, etc, etc. O que Ayrton identificava de imediato viria a ser confirmado minutos depois pelo sistema informático, pela chamada black-box, após os técnicos disporem dessas informações pelo print, já que naquele tempo não havia ainda a telemetris directa, como é vulgar hoje em todas as equipas.

Os seus briefings com os técnicos da equipa eram verdadeiras aulas da Universidade Técnica. Domingos Piedade diz que "ele era simplesmente fenomenal, fora do normal". Não era pois necessário perguntar-lhe qual o piloto que mais o marcou, quer a nível profissional como pessoal.

Com indisfarçável emoção confessa que Ayrton Senna "é uma das pouquíssimas pessoas por quem rezo quase todos os dias". Recorda como se fosse hoje o dia da morte de Ayrton, 1 de Maio de 1994, em Imola, quando se encontrava na República Popular da China e assistia à corrida pela televisão. Para além do Grande Prémio de 1994, que Domingos Piedade recorda por razões tristes, refere 2 dois outros GP que o marcaram: "Sábado 21 de Setembro de 1986, Grande Prémio de Portugal, dia em que conheci Ana Paula Reis, a minha mulher", diz com um sorriso largo, "e Donington, Grã-Bretanha,1993, em que chovia para todos menos para o Becão, que deu um verdadeiro show de condução".

Ayrton sempre presente, pelas melhores ou piores razões. Ainda a propósito do GP de San Marino (Ímola), refere que, apesar de tudo, como não estava presente e tinha estado 3 meses antes a passar uns dias com Ayrton na sua fazenda, no Brasil, recorda-o dessa altura, ou seja, vivo, alegre e feliz. Assim como a Stefano Casiraghi, que o tinha convidado em 1990, entre outros amigos, para assistir àquela que premonitoriamente definiu como a sua última corrida; o convite de Casiraghi aos amigos era uma T-shirt, com o seu barco, onde se lia "Come and see my last race". Diz que a morte de amigos, como Ayrton, Casiraghi, Alboreto ou Adriano Cerqueira em circunstâncias chocantes, são factos que marcam muito a existência de uma pessoa e fazem com que a sua atitude perante a vida tenha mudado, relativizando muito mais as coisas.

Domingos Piedade é Administrador da DaimlerChrysler. A partir de Janeiro de 2006, vai ser o Executive Senior Adviser mundial para todos os produtos high-end da MCG, a divisao automóvel do Grupo. Viaja 800 horas por ano de avião e conduz alguns dos carros mais potentes que a Mercedes fabrica. Actualmente, conduz um protótipo do CLS 55, motor de 6L e 620 cavalos.

Como é que um casamento sobrevive a esta vida a 1000 à hora? Diz-se afortunado por ter uma mulher que o apoiou e apoia sempre, tendo abdicado da sua carreira na televisão para o acompanhar quando se estabeleceu na sede da Mercedes AMG em Estugarda, além de uma família unida com quatro filhos, quatro netos, duas noras, uma mãe porreira e... até uma sogra sem discórdia. Com um sorriso, define o seu casamento como uma "Perfect and happy long distance relationship".

Quem sabe deve-se ao tempo, ou melhor, à falta dele, a paixão que nutre por relógios. Mas não são todos, têm que ter significado. "O relógio tem que nos dizer qualquer coisa, tem que haver uma história por trás, ou são edições limitadas, ou foram feitos por alguém em especial, ou são fruto de uma parceria, como a da Mercedes AMG com a IWC". É amigo, entre outros, de Jack Heuer, Carlos Dias, Presidente da Roger Dubuis e Georges Kern, da IWC. Passou este gosto para os filhos, em particular para o filho mais velho e revela-nos que é muito supersticioso, o que é surpreendente num homem que se movimenta num mundo dominado pela tecnologia de precisão. Se, por exemplo, um dia lhe corre particularmente bem, no dia seguinte usa o mesmo relógio. Quando estava ligado às corridas, nunca nenhum piloto seu viu um "13" mostrado no painel da box.

Domingos Piedade é também Administrador do Circuito do Estoril. Quando é que este local poderá acolher novamente um GP de F1? Dá-nos uma visão realista da questão. Diz-nos que o nosso tempo já passou. Estamos inseridos numa Uniao Europeia com 25 países membros, distamos 2 500 Km do centro da Europa e 1 200 Km do Grande Prémio mais próximo. O que temos para oferecer a mais que os restantes 24 países? Para nós entrarmos teria outro país europeu que sair. Hoje a questão que se coloca é ver-se a F1 a sair mais da Europa, já que os valores cobrados no Médio Oriente e na Ásia em geral sao bem mais elevados; por exemplo, para na Europa se adquirir um franchise de F1, paga-se 18 milhões de dólares; a China paga 30 milhões mais os direitos de TV e o Bahrain 25 milhões. Além de que no Oriente "não existem as limitações de publicidade a que nos sujeitamos na União Europeia, com promoção livre ao tabaco e ao álcool, mesmo como patrocinador principal de um Grande Prémio."

Domingos Piedade é um dos Conselheiros para a Internacionalização da Economia Portuguesa, uma organização que faz parte de uma nova diplomacia económica portuguesa integrada no MNE, mas de índole apartidária. "Somos um grupo de quadros superiores de multinacionais nacionais e estrangeiras, a residir fora do nosso país, que, na minha opinião, deveriam ser muito mais utilizadas como consultoria complementar pelos órgãos oficiais portugueses, nas suas actividades económico-financeiras, político-sociais e culturais, nos países onde estamos inseridos, até porque, contrariamente ao que acontece nas nossas vidas profissionais, este desempenho faz-se "por amor à camisola e um portuguesismo que não se esquece."

E a imagem de Portugal no exterior? Para Domingos Piedade, o nosso problema de imagem insere-se num contexto mais vasto que é a própria Europa. Considera que a Europa enferma hoje de uma crise de liderança pois não existe nenhum líder europeu com força no exterior, o que debilita a própria imagem dos países. "Os tempos de carácteres políticos fortes, como Kohl, Mitterand, Thatcher, Brandt,Schmidt, no centro da Europa, ou líderes partidários como Berllinguer, Strauss, Marchais, Cunhal,Soares, Sá Carneiro, numa Europa mais ao Sul, tendem a desaparecer. Os jovens precisam de ídolos também nas Ciências Políticas, alguem que lhes ensine na "crossroad" da vida o que é a esquerda, a direita ou o centro. Tarefas difíceis para os políticos de hoje em actividade ou em re-actividade."

Com o conhecimento que tem de outros países, encararia a hipótese de voltar a viver em Portugal? Diz-se mais tolerante e "capaz de ter hoje um melhor entendimento do que antes para viver cá, até porque também estou mais velho e gostaria de paralelamente retribuir algo que o meu País deu, ver crescer os meus filhos mais novos e os meus netos."

fonte: www.bpcc.pt
Contribuído por RPMS , Domingo, 14 de Junho às 12:10
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